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https://archive.org/details/cartaapologeticaOOcruz
l^oUlis iíta verU pfx>prio sTpoitata cÍecor*e,
Vt vTibi recldcntur debita Jum rogam;
Jofeph noTuC"''< rabes : hoc Incpememta rectudit^
S ontíat çffcctu rn nomvnis lUa í ut .
XCIaLuí. 0X\47SÚ.
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CARTA
APOLOGÉTICA»
E ANALYTICA,
Que pela ingenuidade
DA PINTURA,
EM QUANTO SCIENCIA,
E/creveo com profundijiímo re/peitOf
AILLUSTRISSIMA, E EXCELLENTíSSlMA SENHORA,
D. A N N A
Dfc LORE N A,
Marqueza Camereira mór das Rainhas noíTas Senho-
ras , e da Sereniflima Senhora Princeza doBrafil,
COMO PROFESSORA, E PROTECTORA AUGUSTA
dejia Sciencia ,
JOSEPH GOMES DA CRUZ,
A ROGO DE ANDRE' GONÇALVES
•Pintor ingénuo Ulyíliponeníe.
LISBOA,
Na Regia OfEcina SYLVIANA, e da Academia Real.
M. DCC. LU.
Com todas as licenças necejfarias.
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LICENÇAS.
Do Santo Officio.
Cenfura do M. R. P. M. Francifco V elofo , da
Companhia de fe/u , QuaMcador do Han~
to Oficio f tXc.
ILLUSTRISSIMOS SENHORES.
ESt çt cn Jem de V oílàs Senhorias na6 foy
preceito para o meu rendimento , mas
obfequio , o mais eftimavel, para o meu
agradecimento. Por quanto em obede-
cer , nao fó com promptidao , mas também
com alegria , nao fiz facrificio , fiz fim huma
fineza , em que fe intereflava o meu deíêjo,
com ogofto de ler eíla Carta Apologética , e
Analytica , que o feu Author efcreveo com
penna taô raígada , e aparada , como fua , à
llluftrifiima , e Excellentiífima Senhora Mar-
queza Camereira mór , a favor da Ingenuidade
da Pintura.
E na verdade correfpondeo o fucceflò à
minha expedaçaôj porque achey dentro defta
Carta
Carta hum theíbiiro de letras , e noticias , que
compunhao hum tao elegante , como erudito
Arrezoado , que naÔ íó perfuade , mas con-
vence a qualificada nobreza de huma Arte , de
cuja alta origem nao fe póde duvidar , por ter
fido concebida em huma bella , e perfeita Idéa,
filha legitima da mais nobre Potência do Mun-
do pequeno , o Entendimento do homem j e
ainda com mais fineza , e melhor fortuna , do
que Minerva j por nao ter , nem ainda aquellas
groíferias , que efta Deofa contrahio do cerebro
de Júpiter , ao menos com alg;uns longes de me-
chanica. Pois que direy dos leua iiinflres Bra-
zoens , tao antigos , como os primeiros Jeio
glificos , que inventaraô os Egypcios , para ex-
primir os aífedos do animo , antes que Apollo-
doro apuraílè o pincel , Filodes lançafle as li-
nhas, Cleofanto diftribuiííè as cores , e Arifti-
des com a ultima perfeição , por virtude defta
Arte , obraílè maravilhas , em correfpondencia
dos maravilhofos effèitos da natureza, que pro-
curou equivocar com a mefma Arte : de ma-
neira , que , fendo errado , nem por ilíò deixou
de fer defculpavel , e ainda difcreto , aquelle
enleyo dos fentidos , efpecialmente dos olhos ,
com que Zeuxis pouco depois enganou as aves,
e Parrafio os mefmos homens.
Mas
Mas ainda que a Pintura naõ foílè taõ
nobre por naícimento , ou por infelicidade fua ,
com a mudança dos tempos , e ruina dos Impé-
rios , tiveíle perdido o foro de fua fidalguia ;
bem podia agora dar as alviçaras , a quem lhe
aprefentafiè efte illuftre padrao da fua Nobreza,
que com Ibbrefcrito de Carta remetteo o Au-
thor à Illuftriffima , e Excellentiffima Senhora
Marqueza Camereira mór , í’em feaflliftar, pa-
ra fufpender os voos da fua penna , com o ref-
peito devido a huma Senhora defta qualidade ,
que , por eftar taõ próxima às Mageftades , e
Princezas Reaes , fomente lhe falta a Alteza pa-
ra lêr mayor. Mas , como efta Carta encerra
em fi tanto Direito , tantas razoens , e docu-
mentos tantos, com que toda a Jurifprudencia,
e erudição do Author , nao digo eu , fomente
favorece , mas também pudera ennobrecer a
mefma Pintura na falta , ou perda da fua No-
breza; jufto era, que efte Jurifconfulto , o ma-
yor da nofla Naça5 , ufaílè a mefma politica do
Doutor Máximo da Igreja S.Jeronymo , a quem
nem acovardou a grandeza , nem reprimio a fan-
tidade de huma Santa Paula, a mais efclarecida
Matrona de todas as Senhoras Romanas , para
deixar de efcreverlhe , naÕ fó huma, mas mui-
tas Cartas , todas cheas de piedade , e difcriçaõ.
Quanto
Quanto mais , que para eíla Carta íèr bem re-
cebida , e aceita de Sua Excellencia , com ale-
gre , e benigno íemblante , bailava fer Carta de
recomendação , e favor , a refpeito de huma
Arte , que mereceo o íeu agrado ; e nao fó el^
te , ainda que bailava , para mais realçar nos
olhos de todos ; mas também (o que he mais)
huma eilimaçao tal , que , fe pudera ter razao,
aílim como muitas vezes tem alma , feria juilo
o íèu defvanecimento , por ter fido nao poucas
vezes exercitada por humas mãos taó delicadas,
que bem as podia beijar , por lhes dever mais ,
do que a outras mãos , a fua mayor fineza ,
primor , e elegancia. E certo , que iilo fomen-
te bailava para mayor tymbre da fua Nobreza.
Por eila caufa tinha muita razao o Au-
thor para fe indignar contra o vulgo ruilico , e
infipiente , por ter taÔ máo gofto , e baixo con-
ceito de huma Arte , que vendo-a andar por
efllis alturas dos mais nobres , e foberbos Pala-
cios , ainda aílim , a defeílima , e reputa por me-
chanica , como fe fora nafcida , e creada nas
mais humildes choupanas. Mas defculpo-o em
parte , por iílb mefmo , que ignorava até agora
eíle Padrao da fua Nobreza. Agora fim , tan-
to que fe publicar eíla Carta , já ninguém ha-
verá tao groílèiro , que lhe nao faça huma cor-
tezia
tezia correfpondente à fua graduaçaõ ; por fer
tao attendido, erefpeitado o Nome dofeu Au-
thor, que baftará faberfe, que elle acreditou ef
ta Arte com a fua penna , naô menos fubtil,
que o pincel , de quem a cultiva , para ninguém
já mais lhe difputar a íiia Ingenuidade. De mim
confeflb , que quando li efta Carta , formey taÕ
alto conceito da fua Nobreza , que fíquey ne*
ceííitado , nao fó para a trazer nas palmas , mas
também para a collocar , fe pudera , debaixo dos
mais altos dóceis j porque, depois de qualifica-
da a fua Nobreza com a excellencia de tantos,
e taô magnificos titulos , com que o Author de
novo a ennobrece , e engrandece , he fem con-
troverfia , que fe lhe devem conceder todas as
honras que faÕ commuas às mais Artes libe-
raes , e ainda outras mayores, como fe foraPrin-
ceza , ou Rainha de todas.
Por ultimo rogara eu também agora a
quem fez efcrever efta Carta , na6 puzeflè fo-
mente o feu empenho , em dar à eftam.pa efta
Carta, mas também em nos dar hum Retrato
do feu Author com aquella delicadeza de mao,
e fubtileza de pincel, que todos admiraÔ, epor
iílb he a mais apta , para reprefentar ao vivo
efte mayor , e melhor Mecenas da Pintura , que
com eftas , e outras Obras, todas dignas dofeu
raro,
raro , e paímofo engenho , bem merece ficar
immortal , naô íb na memória , mas também
nos olhos dos vindouros. Aííim o efpero com
a mefma impaciência , com que odefejo ; e com
tanta preíía, quanta terão Voílãs Senhorias em
dar a licença , que fe pede , para imprimir efta
Carta , que para bem havia de fer imprefla com
caraderes^de ouro , pela fua preciofidade , fem
fezes algumas de vicio , que encontre a fineza
da Fé , ou a pureza dos bons coftumes. Lisboa
na Çafa Profeflà de S. Roque aos 20 de No-
yembro^de 1751.
Francifco Vello/o.
Vlíla a informaçaÕ , pode-fe imprimir a
Carta Apologética , que fe aprefenta , e
depois voltará conferida , para fe dar licença ,
que corra , fem a qual nao correrá. Lisboa ,
2} de Novembro de 1771.
Abreu. Almeida. Trigofo.
Do Ordinário
Cenfura do Keverendo Doutor Jo/eph Thomâs
Borges , Presbytero Secular , O* c.
EXCEL.”» E REV.”° SENHOR.
VI com a mayor attençao a Carta Apolo-
gética , e Analytica , que pela ingenuida-
de da Pintura , em quanto fciencia , efcreveo o
Doutor Joíèph Gomes da Cruz , e a liçaÔ del-
ia me fegurou indeíèdlivel o grande conceito ,
que muito antes me havia devido efte Efcritor ,
eximiamente verfado em huma , e outra Jurif-
prudencia , infigne em todo o genero de erudi-
ção, e com publico louvor acreditado m Re-
publica litteraria. Se todas as Obras , que af
pirão àluz doprélo, foílêm tao magiftralmen-
te compoílas , nenhum lugar deixariao para a
cenfura. Nefta Carta naõ Te defcobre nem hu-
ma fó fyllaba , que fe opponha aos dogmas da
Religião , ou à pureza dos bons coílumes : e af
fim julgo , que V. Excellencia pode conceder
a André Gonçalves , ProfeíTor ingênuo da Pin-
tura , a licença , que pede para a eílampa da
~ * mefma
mefma Carta : e fempre V. Excellencía deter-
minará o que for fervido. Lisboa , 27 de No-
vembro de 1751.
J^eph Thomás Borges.
Vlíla a informação, pode-fe imprimir o pa-
pel , de que fe trata , e depois torne pa-
ra fe dar licença para correr. Lisboa, i de De-
zembro de 1751.
D. J.A. ãe Lacedemonia.
Do
Do Defembargo do Paço.
Cenfura de Diogo Barbo/a Machado , Abbade
Ke/ervatario da Igreja de Santo AdriaS de
Sever do Bijpado do Porto , e Acadêmico da
Academia Real, t:fc.
SENHOR.
AExcellente Arte da Pintura , ainda que
teve a fua origem da fombra dos corpos,
na5 lhe impedio efte efcuro naícimento a poí^
fe do Principado , que logra entre todas as Ar*
tes liberaes, aíTim pela antiguidade do tempo,
como pela vaílidaõ do dominio. Foraõ os leus
primeiros cultores os Egypcios , dos quaes inf-
truidos os Gregos, eftes a introduzirão emita*
lia , onde affim no fim da Republica , como no
reynado dos primeiros Cefares , alcançou grande
eílimaçao •, porém com a ruina do Império Ro-
mano padeceo igual decadência , da qual a reí^
taurou na feliz Epoca de 1 240 Cimabue , che-
gando com o progreííò dos annos à íiia mayor
perfeição. A vaftidaô do feu dominio fe dila-
ta defde o convexo do Firmamento até a fu-
períicie da terra, e introduzindo-fe no Império,
faz vifivel aMageftade do Altiííimo, e de todas
*ii as
O
as Jerarquias, que formão a Corte deíle Divi-
no Monarca ; privilegio , que lhe concedeo a
gentilica authoridade deCicero, lib. i. deUa-
tur. Deor. , fallando das fuas mentidas divinda-
des : Dfos novimiis ea fade , c\ua Piâtores volu'
erunt. Coardfa-fe cada Arte liberal a hum úni-
co argumento. A Grammatica , na diípoíiçao
das letras , e propriedade de palavras ■, a Diale-
<5Hca , no artificio dos fyllogifmos ; a Rhetorica,
na elegancia dos difcurfos j a Arithmetica , na
computaçaô dos numeros j a Mulica , na arrao-
nia das vozes 5 a Geometria, naarrumaçaô das
terras ; e a Aílrologia , na obfervaçaÔ dos Pla-
netas 5 porém a Pintura , emula da natureza , e
imitadora da Divina Omnipotência , íê coroa
IMnceza de todas as Artes , reprefentando tudo
quanto fe admira no theatro do Mundo , com
hum tao agradavel encanto , e innocente Ma-
gia , que obriga aos olhos a confeílar , que o
íalfb he verdadeiro , o mudo eloquente , e vi-
vente o morto , nafcendo efta ocular illufaõ do
primorofo engenho , com que o defenho fe vê
animado pelo colorido. Para immortal credi-
to do Magiílerio de tao nobiliííima Arte , que
difcipulos nao fahiraÕ da fua Efcola , dos quaes
logrando fomente a primazia no tempo os Apel-
les , Timantes , Protogenes , Zeuzis , Parraíios,
e Pan-
e PanííHos , os deípojarao defta gloria , os que
florecerao neftes últimos íêculos , chegando com
milagrofo artificio a transferir os feus efpiritos
para os corpos , que formavao com o pincel.
Deftes famofos Corifeos receberão as Nações
mais illuftres da Europa novos tymbres com os
íèus nafcimentos , gloriando fe Roma com Ra-
fael de Urbino , Julio Romano, André Sachiy
Cyro Ferri , e Carlos Marata : Florença com
Miguel Angelo Buonarrota , André dei Sarto,
e Pedro de Cortona : V eneza com Sebaíliao dei
Piombo , Jacobo Tintoreto , Paulo Caliaiia í
Lombardia com Luiz Carache , GuidoReno,
Miguel Angelo de Caravagi ; Alemanha com
Rembrant , Joao Holbeim , e Abrahao de Mi^
gnon: Hollanda com Lucas deLeiden, Abra-
haõ Bloemuert , e Francifco Mieris : Flandes
com JoaoStradan, Martim de Voz , Paulo Bril,
Antonio Vandych , e Pedro Paulo Rubens:
Inglaterra com Guilherme Dobfon , Pedro Le-
ly , e Jaques Thornhill : França com Simaô
Voüet ,.Nicoláo Poúífin, Carlos Lebriin , An-
tonio Coypel, ejacintho Rigand: Caftella com
Jofeph Ribera, chamado o Hefpanholeto , Bar-
tholomeu Murilho , e Diogo Velaíques ; e Por-
tugal com o GraÕ Vafeo de Vifeu, Afif^nfo
Sanches Coelho, Gaipar Dias , Amaro do Val-
le , Diogo Reynofo , Fernaô Gomes , Jofeph
doAvellar, Diogo Pereira, Marcos da Cruz,
Bento Coelho, o infigne Francifco Vieira , Ca-
valleiro da Ordem Militar de Santiago , e entre
elles aquelle , que foy caufa , de que fe efcre-
veílè efta Apologia , cujo nome nao declaro ,•
receando ofíènder a íua virtuofa modeftia. Pa-
ra eílabelecer os antigos brazoens de taô illuf-
tre Arte , e dos feus Profeflbres , fahe a campo
‘o Doutor Jofeph Gomes da Cruz , armado da
fua inimitável elegancia , e nao lhe bailando
para eterno credito do feu talento as eruditifli-
mas Allegações Jurídicas , que admirou o Areó-
pago Lufitano , dignas de ferem recitadas no Se-
nado da antiga Roma , das quaes podia apren-
der eloquência o mefmo Cicero , fe empenhou
a patrocinar cauía mais nobre j ecomo omayor
adverfario defte privilegio foflé o Filoíbfo Se-
neca , o explica com tal arte , que o faz parcial
da fua opinião , moílrando , que a íeveridade Ef-
toica defte Filofofo fe armara contra aquelles
Pintores , que com eftrago da continência da-
vao a beber pelos olhos o veneno de aílèdos laf
civos , como já no feu tempo lamentava S. Pe-
dro Chryfologo , Serm.i^j: Formant adulte-
ria in fiinulocris , fornicationes tmaginihus man-
dant , titulant incejla piãuris j cujo abominá-
vel
vel ufo condemnou o Concilio Tridentino na
feíT 25. de Kejormot. Omnis lajcivia vitetur ,
ita iit procaci vemjlate imagines non pingan-
tur, nec ornemur. A eftes fautores da lafcivia,
e antagoniftas da honeftidade , fe lhe deve ne-
gar o privilegio da nobreza , e na6 àquelles ,
que religiofamente praticao as fuas ideas. Efte
mefmo argumento propugnou haverá cento e
vinte e cinco annos o Doutor D. Joao de Bu-
tron , profeílbr de ambos os Direitos , no livro ,
que imprimio comotirulo dt Difcurfos Apolo-
géticos , en cjiie Je defiende la ingenuidad de la
Arte de la Pintura ; mas aííim como o Sol ven-
ce a todos os Aftros na copia das luzes , e a a guia
a todas as aves na velocidade dos voos, excede
efta Apologia àquella na elegancia do eftylo ,
copia de authoridades , e efficacia de argumen-
tos. Viva pois o eriiditiílimo Apologifta eter-
namente copiado nefte papel pela lua penna,
onde permanecerá indelevel mais do que pelo
pincel dos mais celebres Pintores , dos quaes et
tabelece a nobreza , e formelhe aEftatuaria, em
gratificaçaÔ do zelo , com que propugnou os
honoríficos tymbres de íua irmãa a Pintura, hum
íimulachro, onde por toda apofteridade le ve-
nere o feu nome contra a voracidade do tem-
po. Eíle he o meu voto , que entaÕ ferá judi-
ciofo ,
ciofo , quando V. Mageílade ordenar , que fe
pubÜque eíla Apologia , na qual nao podia feu
Author cahir na menor tranfgreflaõ das fuas
Leys , fendo o mais profundo Profeflbr delias.
Lisboa, IO de Dezembro de 1751.
Díogo Barhofa Machado.
QUe fe polTa imprimir , viílas as licenças
do Santo Officio , e Ordinário , e depois
de impreílb tornará à Mefa para íe con-
ferir , taxar , e dar licença , para que poílâ cor-
rer , fem a qual naó correrá. Lisboa , 20 de
Dezembro de 1751.
Marquez P. V az de Carvalho.
Almeida. Mouraõ.
ILLUS,
X
ILL."* E EX.“'' SENHORA.
ü
JIL^^^ECORRE a V. Excellencia a Pin-
tura , para lhe proteger a ingenuidade ofièndida
em Portugal : e quanto delinquiria eu contra o
generofo efpirito de V. Excellencia , íèo perten-
deflè perfuadir com difcurfos para a protecção
de huma Arte liberal , a que V. Excellencia fe
applica com illuflre perfeição. Padece a Pintu-
ra entre nós as injuftiças , de que lè queixa ma-
goadamente j porque os feus Profeflbres cuida-
A dofos
2 Carta Apologética ,
dofos no eftudo , mais que no predicamento , a
nao remiraõ do conceito do noííb Paiz , nifto
maisbarbaro, que difciplinado; enafceo defte
defcuido o abuíb de fe reputar mecanica efta
Arte , que he compendio elegante , fcientifico,
e viftofo de tantas fciencias principaes , que neb
Ia melhor feexaltao, do que fe (ymbolifaõ: ve-
rifícando-fe o paradoxo incrivel de fe fuppor o
compoftõ mecânico, cujas partes faô nobiliífi-
mas.
Prototypo das Artes liberaes , oftentaça5
do engenho , credito do penfamento , defper-
tador do efpirito , doutrinador da vida , efcri-
tura dos feculos , lingua das antiguidades, ver-
dade das hiílorias , meílra dos ignorantes , mila-
gre da natureza , indice patético dos afíèdos,
e paixoens , de humanidade , e efpelho das obras
do Artifice fupremo, he por ajuftada definição,
e analogia, a Pintura , que fe exercita com fci-
encia primorofa. Por ella , e em reprefentaçao
genril , explica o profefibr theorico , e pratico , a
luave intimativa da Rhetorica , a fermofa pro-
porção da Semytria , a regra magiílral da Arift-
metica , a expreííliõ affeâ:uofa da Mufica , os
penfamentos divinos da Poefia, a luz clara da
Hiílo-
e Ãrialytica, 2
Hiíloria , a organizaçaÕ ícientifíca da Anato-
mia , e íinalmente no quadro, em que tudo ifto
fe exercita , fabe o pincel emendar os defcuidos
da natureza , formando figuras mais belias , e
regulares, do que ella produzio.
Por ifíò clamo eu agora decorofo , e confi
tante , que das Sciencias moraes ( naõ fallo na
Theologia, ejurifprudencia ) nenhuma he tao
nobre , doutrinal , e precifa , como a Pintura
para a inftrucçaÔ dos noílbs eoftumes , e apro-
veitamento 5 porque nem tanto, nem melhor,
que a Pintura , outra Arte nos introduz, com
agradavel expreíTao, preceitos puros , nos enca-
minha com doce , e vehemente atracçaô , para
emprezas de honra , e de virtude , e nos dá idea
clara, e pofíivel de Deos , e das fuas maravi-
lhas. Porefta Arte (que toda he de entendi-
mento) recebemos luz prompta para a compof-
tura da vida , quando a ma5 do Artifice perfei-
to nos intima com elegante moralidade , no pai-
nel hiftoriado , allegorico , metafórico , e de-
monftrativo , as regras virtuofas para o exercicio
da honeftidade dos noílòs paíTos ; pois he a Pin-
tura affim doutrinada , flagello rhetorico, e mu-
do dos vicios, e efpirituofo incentivo para aper-
A ü feição
4 Carta Apologética ,
feição moral, e política doVaraôSabío, eCa*
tholico.
Nao fe exercitava no íèculo de Seneca a
Pintura com efta moralidade j porque Roma
gentílica ( depravada na concupifcencia , que
tanto entre outros vidos graílòu naquellas ida-
des ) eftimava em muito objedos lafcivos , nos
quaes ( rafgado o veo da pudicícia ) fe eftuda-
vao eftimulos para o deleite , e também fe de-
dicavao os amores , profanando-fe a immunida-
de da mentida natureza. Seneca, mais moral na
doutrina, que nos coftumes , enfurecido contra
a torpeza dos Romanos , e reputando na Epif-
tola 88a Lucilio aos Pintores daquelles objedos
artífices da deshoneftidade , os confiderou indi-
gnos da claflè das Artes liberaes 5 e bailou efta
declaraçao , ou efte dogma Eftoico ( nao con-
tra a Pintura como fciencia , mas dirigido aos
Profeflbres delia , que viciofos introduziao na
imagem immodefta , fe bem perfeita nas regras
da Arte , reprefentações abomináveis) para que
principiaílè o conceito , de que a Pintura era
ilJiberal , adulterada a doutrina de Seneca na ge-
neralidade , com que foy recebida.
Correrão os tempos, e crefcerao nelles as
liber-
e Amlytica, 5
liberdades dos Efcritores , exercitadas muitas ve-
zes com foberba , e oílentaçaõ j porque perdi-
da pelo peccado do primeiro homem a armo-
nia do íocego plácido , que haveria no ventu-
rofo eftado da innocencia , fe franquearao as
certezas pela porta das difputas , introdiizindo-
fe nellas osvicios das delicadezas, e defvaneci-
mentos , como tributo hereditário da natureza
corrompida , que fe confumirá com ella no abra-
zado dia do diluvio univerfal 5 e confeguio o ini-
migo da verdade perfeguilia de modo , que na-
da houveílê no Mundo, em que ella naÕ expe-
limentaíTe opinião.
PaííàraÕ osFilofofos doPaganifmo as vi-
das em queftoens , inventaraô-fe as Seitas , fre-
qnentarao-fe as Aulas , erigirao-fe também Eí^
colas no Cbriílianifino , e em fim fe bemquifta-
rao as Criticas ; porque o demonio , pelo dom
da fciencia , que coniêrvou , perdida a graça ,
antevio , que a natureza humana propenfa pa-
ra a variedade , e dominada do e^irito da in-
quietação , que domina de ordinário , o enge^
nho facil , e agudo perturbaria a certeza das
coufas no raeímo exame , que entraílè para a
indagar , disfarçandolhes os delirios da paixao ,
e da
6 Cartà Apologética ,
e da vaidade nos meyos de a excluirem.
Tudo neflia forma fe perturbou, padeceo,
c padecerá pelo primeiro peccado j e também
a Pintura experimentando os efleitos deílas per-
turbações , padece o conceito , com que a inju-
riarão eílès Doutores , que lhe difputaô a no-
breza originaria , e politica. Nao podiao achar
principio folido no Direito primitivo dos Ro-
manos , porque nos duzentos e quarenta e qua-
tro annos , a que fe extendeo o governo dos
Reys , foy a Pintura eílimada diílinclamente ,
como o era a familia dos Fábios com o appelli-
do de Pidor , brazaõ illuílre dos Confules def-
eendentes de Fabio , filho terceiro, e legitimo
de Numa , Rey fegundo de Roma , que como
Profeílbr pintara nella o famoíb Templo da Sau-
de. Naô podiao defcobrir nas doze Taboas, nos
Plebifcitos , Senatus Confultos ,Edi6los dos Pre-
tores , repoílas dos Sábios , e nas Conftituiçoes
dos Príncipes , que foraó os Legisladores fuccef-
fivos , e difcretivos , do primeiro Direito Civil ,
efcrita Ley alguma , porque a nao havia , con-
tra a nobreza da Pintura. Nao podiao valerfe
do mageftofo corpo das Leys compiladas , e
feitas por JuíHniano , porque as que elle nos
deixou
e ^nalytica. 7
deixou priviligiavaô diílindamente a Pintura ,
e para a difiàmarem , bufcaraô o lugar de Se-
neca , e fortalecendo-o com as interpretações
malignas de alguns textos , em que fundaraÔ
hum rdfma, que he heretico no lentido civil,
e político , contra toda a Ley , e prudente ra«
cionaçao.
No entendimento moral de Seneca fe ex-
ercitou o primeiro mais forte infulto deflès Dou-
tores , e padeceria Seneca daqui em diante no
conceito dos eruditos modernos , fe eu nefta
Apologia nao vindicaílè a fua moralidade do
vilipendio, com que a pervertem : 2Ví?n adducor^
ut in numerum hberaiium arthm piclores recU
piam , non magis (juam Jiatuarios , aut marmo-
rarios , aut catercs hixuria miuifiros , efcreveo
Seneca naquella Epiftola 88 a Lucilio. Naõ ad-
mittio neftas palavras entre as Artes libera es aos
Pintores deshoneftos : e quem na5 vê , que Fal-
lou dos Pintores em particular , e nao da Pintu-
ra em geral , nao deteftando a fciencia , mas o
abufo delia ? E por illò quando reprehendeo a
efiès Artifices, lhes decjarou logo o motivo cau-
fal de ferem miniftros da fenfualidade. E fe
Seneca tanto vituperou o máo ufo , que fe da-
va
8 Carta Apohgeticd^
va à Pintura , embravecendo-íè contra os Pin-
tores , que abufavaô do feu virtuofo fim , niílò
moftrou o quanto a louvava, íendo excitada
fem eílè abufo , explicando como Filofofo, que
era , na deteftaçaÔ concretiva do viciofo na Pin-
tura , o que devia fer louvável nella. Por iflò
declamou pela caufa final , que o movia , para
que fe nao entendeíTe , que deixava compre-
hendidos em geral aos Pintores, que fe naÔ ex-
cluiao na dita caufa.
Eu nao me admiro , que contra Seneca íe
apararaô , e apuraraÔ pennas eruditas , delica-
das , e anatômicas , que o arguiraô de inconfi
tante , e também de contrario na fua doutrina j
porque fempre contra osYirgilios, osCiceros,
e Titolivios, houveraÔ Polioens, Marcos Bru-
tos , Calvos Afinos , e outros Ariílarcos Píêu-
docriticos íbberbos. Reparo íb, que dentro na
doutrina , que fe abraçou como virtuofa, de Se-
neca , fe eílabelecellè a propofiçaô , que o infa-
maíTe j querendo , que elle no puro fyílema fi-
loíbfico deteftaílè o bom na invediva determi-
nada contra o máo. Quem na mefma fcien-
cia reprehende o vicio , engrandece a virtude.
Quem abomina hum contrario, abraça o outro.
Quem
eAnalytica, p
Quem caftiga o delinquente, eftima a Ley of-
fendida. E quem priva do privilegio da No-
breza , reconhece a exiftencia delia.
Nem he crivei, que amando Seneca ef-
pirituofamente os incentivos da honra , da glo-
ria, e da vida doutrinada, como moílraô os diA
eretos clamores dos feus preceitos moraes , e
fendo eftimador heroico das perfeições do en-
tendimento , vituperaflè a Arte da Pintura , que
he epilogo perfeito , e vifivel delias. Na fua
raefma Roma via Seneca pintaremfe nos Ef-
cudos , e Eftandartes bellícos as armas , as proe-
zas , e as façanhas , como defpertadores effica-
zes dos Soldados para acções gloriofas. No
Senado achava reprefentadas pelo Artifice , hif-
toriador mudo , as batalhas , em que o Povo fa-
hira vencedor : e erigidos nos lugares públicos
os retratos Iconicos, eEthicos dos Triunfado-
res Olympicos, exemplares aíli vos, que alentaf-
fem os efpiritos para fortaleza , e emprezas ma-
gnanimas , melhor intimadas pelos olhos , que
pelos ouvidos , e com elegancia mais penetran-
te nas figuras do pincel fabio , que pelos tropos
da lingua do Orador erudito.
Na idade de Seneca permanecia a familia,
B que
I o Curta /Ípologetíca ,
que já diflê , dos Fábios , com o appelHdo de
Pidor. No Catalogo dos Profeflòres da Pintu-
ra, contava Seneca mmtos Principes Romanos,
que exercitarão efta fciencia. No Syftema da
Efcola Efloica era liberal tudo , o que a difci-
plina dos Gregos, primeiros, e melhores Mef-
tres daPolitica civil, reputaraÔ por ingênuo. E
era dogma elemental , que já vinha de Cicero,
nao fe abater a fciencia abílradiva pelo uíb vi-
ciofo dos Profeflòres delia : e naÔ merece o en-
tendimento de Seneca fe lhe attribua 'doutrina
4
contradidoria das virtudes , e eftudos , de que
elle foy proclamador j nem os Romanos zela-
dores das honras , predicamentos , e diftinçoes j
íofreriao fe envileceflè o eftado da nobreza da
Pintura, que tanto feeftimava naquelle Povo,
vendo-fe a fi abatidos , a feus anteceflòres , a
tantos Principes , e a huma geraçao Real, illuA
trada com Confules pela penna de Seneca , fe
elle exprimiflè , o que os Efcritores nos feculos
futuros a elle efcreveraS , que diflèra !
O mefmo Seneca definio nefla Epiflola a
Pintura dentro na regra , .que deixava já efta-
belecida de fer liberal toda a applicaçaô ; e o
eíludo, que os Gregos chamaraÔ Difciplina li-
beral ,
e Jnalytica, 1 1
beral , que foy também a definição de Ulpiano
para as Artes liberaes : Libera/ia autem Jludta
accipimus , (jii<e Graci Uberales di/cipUnas vo-
cant 5 e accrefcentou , que todos os empregos,
dignos do Varao livre , erao liberaes í Quare
Uberatia iludia diÓía funt vides , <\uia hetnini li-
bero digna funt , caterum iinum Jludium vere li-
berale ejl , quod liberiim facit , idejl, fapientia
fublime , forte , magnanimum. E bem fabia Se-
neca , que os Gregos eftimavao a Arte da Pin-
tura com tal diftinçao , e fuperioridade das mais
Artes liberaes, que nenhum mancebo ingênuo,
fem a aprender , paíTava para o eftudo de outra
fciencia , prohibindo ( para que foflè nobre a
Pintura ) por Edido perpetuo , o ufo , e o efiu-
do delia aos eferavos : Et hiijus auóloritate (diz
Plinio) efeâíum ^ ficyone prinnim: deinde, C>*
in tota Greecia , ut pueri ingenui ante cmnia
antigraphicem ; hoc eji , Piãuram in ludo doce'
rentur , recipereturijiie Ars ea in priwum gra-
dam liberalium : femper (juidem honos ei fuit ,
ut ingenui eant exercerent : mox ut honejU per-
petuo interdiSío , ne feientia docerentur ; e def-
ta difciplina , e do dito Edido dos Gregos nos
dá a mefma certeza Alexandre de Alexandre,
B ii acerefi
12 Cariâ Apologética^
accrefcentando , que era reputado por indou-
to , inhabil , e preferido por todos , quem nao
aprendia a dita Arte , que como a primeira das
liberaes , era vedada aos efcravos : Sicut ftcyo-
ne , mox peromnem Gr teciam tanti fiiit Jludii,
ut pueros ingênuos. PiÓíuram , tamquam pra^
cipuain Hheralium artium in primis edocerent
Magijlri perpetuo interàiâíoj ne ad illam man-
cipia admitterentur , indoãusque , C?* omnium pof-
tremus habebatur , quisquis hujus artis nefcius ,
mit expers for et e he ponto concordado nos
eruditos da Hiíloria Grega.
No mefmo modo , fe Seneca na opinião
da Filolbfia Eftoica concluía , que fó era libe-
ral o eftudo , que fazia aos íeus Profeíibres ani-
mofos , fortes , e livres nas fuas acções , e por
iílb deteftava os Artífices das Pinturas daquel-
les feculos , (que commummente eraõ lafcivas ,
como diz Filippo Beroaldo no Comento de
Suetonio Tranquillo ) porque attrabiaõ os âni-
mos àefcravidaõ da concupifcencia 5 claro he,
que pois nefiès Pintores fe naÕ verificavaÕ as
partes da definição , haviaõ fer elles illiberaes.
Nem Seneca , exercitando a pericia de Filofofo,
dos mais doutos da fua idade , fe empenh.iria a
bufcar
e Analytlca^
bu(car razoens para nao fer liberal a Pintura ,
fe ella em fi foílè mecanica 5 porque fabia , que
na5 podia fundar elTa privaçao de nobreza, fe-
na5 houveílè o habito delia fobre que cahiílè
adita privaçao.
Teve Seneca juízo prudencial de grande
doutrina, e erudição, econheceo por luz viva
de difcurlb moral , que todas as Leys , todos os
Eftatutos , todos os Conceitos , e abfolutamen-
te tudo , o que he legislativo , fe regem por hu-
ma jurifprudencia media, e racional, ou tempe-
ramento difcreto entre a igualdade particular ,
e a equidade legal , que entendendo os textos,
e os ados pela intenção dos Legisladores, ajuf-
tada à congruência dos tempos, os declara ,' e in-
terpreta , e os coflumes , que he o fentido , em
que fe podia dizer variavel a Ley humana : e a
ifto que chamamos , e fe chamou fempre Epi-
cheia , ou interprete proviíional , e prudencial ,
que rege as coufas com variedade congruente
à natureza , e à mudança dos tempos , e eftadoS)
fe fugeita o entendimento , doutrinado para a
verdadeira intelligencia das determinações IcgiC-
lativas , ou fejaõ do Príncipe , ou do coftume.
Nifto leva a Epicheia ventagem aos
Douto-
1 4 Carta Apologética ,
Doutores , pois ainda que fejao tochas elegan-
tes , que nos aclarao os difcurfos na efcuridao
das Leys para os cafos comprehendidos nellas ,
nos naõ inftruem nos acontecimentos naÕ fym-
bolizados neílès cafos , pois tem limites a alça-
da intelligencia genuina , prudente , provável ,
e magiftral dos Doutores , que fó lhes permit-
tio Juftiniano no feu Edido. Porém a Epi-
cheia com a jurifdicçaõ mais adiantada de inf-
pedora da vontade do Legislador, (que he a
alma da Ley) a dá racional para o noílo gover-
no , regendo-íe nao pelo que fe efcreveo , e coí^
tumou , mas pelo que fe efcreveria , e coíluma-
ria naquelle tempo , mudadas as circunftancias,
e alterados os fins , que íe attenderao , fe naõ
ajuílafièm a elles as determinações , que entaÕ
pareciaõ ajuftadas porque raciocina efta Mef-
tra prudentiífima de huns cafos fymbolizados
nos outros , na mefma razaõ , e natureza , para
os comprehender na mefma Ley •, e da contra-
riedade de outros para os reger com Ley con-
traria. E a naõ íer affim perigaria algumas ve-
zes a juftiça diftributiva , exercitando-fe a fum-
ma injuria naobfervancia cega do direito fummo.
Se Seneca alcançaflè a Ley da Graça , ou
viveílè
e Analytica, i j
viveílè nelia, e reproduzido de Roma Centili-
ca para Roma Catholica , admiraíTe o quanto
em huma erao as Pinturas ditièrentes , do que
foraÔ na outra , e o como aquella inftrucçao ,
ou lifonja para os vicios , era hoje deteftaçao ,
e abominaçaÔ delles : fe nos Palacios Pontifí-
cios , nos Templos , nos Santuários , eem todas
as Gafas dedicadas a Deos , e aos lêus Santos ,
viílè era tudo Divino , e ornado com quadros ,
que em fíguras moraes , e doutrinaes expreflòens
nos reprefentavao , e enfinavaÔ a oblérvancia
dos mandamentos da Igreja , e os myfterios da
noíTa Fé : fe confiderafíe nos tres cultos , que
entre os fumos do incenfo tributamos nos Alta-
res às Imagens fagradas : e fe em fím conhe-
cefíe , que fó pela Pintura alcançavamos figu-
rada vifivelmente a Imagem de Deos , e huma
intelligencia humana da Jeriifalem triunfante :
naõ chamaria Seneca aos Profeííores deftas Pin-
turas , como definio , ou com.parou aos outros
Artífices da deshoneftidade \ antes venerando a
perfeição, a moralidade , a doutrina , e a impor-
tância deftas Imagens , exaltaria de heroica , e
orthodoxa , a fciencia da Pintura , que iiellas le
empregou.
Se
i6 Carta Apologética^
Se olhafle para Joíèph , defendendo com
fagrada conftancia a caílidade : fe viílê tantas
Virgens merecendo, em martyrio cruento, as
palmas da virgindade : fe por outra parte , to-
pando com a vifta na reprefentaçaô do deferto,
achaíle os Anacoretas , cultivadores folitarios ,
e vigilantes da candida flor da continência , for-
talecendo o efpirito com as macerações do cor-
po : ou fe em pequena taboa eíliveílè figurada
a horrivel reprefentaçaô do Inferno dos lafci-
vos : clamaria Seneca com ajuíladiílimos epithe-
tos , que eftes Pintores , fim , contrapoílos aos
de Roma , erao declamadores eloquentiífimos
contra a fenfualidade , exhortadores elegantes pa-
ra o caminho da virtude , e difcretos diredores
do efpirito da caílidade.
Quantas vezes íe commoveria Seneca , en-
chendo-fe de admiraçao , e de doutrina , vendo
exercitadas com artificio bello , e moral , pelo
pincel engenhofo, e fabio, o retrato das obras do
Creador , e da creatura , e admiraria a união difi
tributiva , e fymbolica , das fciencias , e das vir-
tudes, que alli fe comprehenderiáü? Eíe Sene-
ca aiTentava, que aFiloíbfia Eftoica era aPrin-
ceza das Artes liberaes j porque inílruhia com
os
e Analjtlca. ' 17
os feus preceitos para os bons hábitos , e para o
perfeito conhecimento das fciencias uteis a vi-
da dos coftumes , como defeftimaria a Pintura ,
que em melhores figuras nos moílrava nao fó a
inftrucçaÕ para as fciencias , mas hum perfeito
congregado delias, e tanto mais attradivo, quan-
to os olhos nos penetrao melhor , que os ouvi-
dos.
Nefla Filoíbíia Eftoica , que tanto vene-
rou eíle Profeííõr delia , nao confentiria elle,
que perdeíle a fciencia o predicado de nobre
pelo máo ufo, e prevaricaçaõ de algum Filoíb-
fo ; e fempre a fciencia feria ingênua , ainda
que oProfeflbr deliraflè dafua doutrina. Por-
que os Romanos foraô tranfgreflbres das fuas
Leys , nao deixarao ellas de ferem virtuofas:
porque o Theologo nao votou bem ; o Medi-
co errou a cura 5 o Mufico cantou fem voz ,
nem compaflb j o Juiz julgou injuílamente ; e
o Advogado prevaricou no officio , nao pafíã-
Taô de liberaes para mechanicas a Theologia,
a Medicina , a Mufica , a Jurifprudencia , e a
Advocacia.
Nao mereceo Seneca (por deftinaçao da
providencia Divina ) nafcer com a luz da Ley
■ C da
i8
Curta /ipologetica ,
da Graça ; e íe aquelle nobiliíllmo entendimen-
to foííè Catholico, confeíTaria, que a Jerarquia,
em que efteve Lucifer , nao perdeo pela fober-
ba , abatimento , e peccado delle , a exaltaçao,
e a virtude de Angélica j nem que a natureza
humana deixou de fer a obra mais perfeita da
maõ de Deos pela culpa peíToal da primeira crea-
tura, E fe eu agora me embaraçaílè com os
Pfeudo-Senecas , lhes lembraria , que por have-
rem Antipapas , Papas verdadeiros , ainda que
máos Pontiíices , Principes tyrannos, Sacerdo-
tes homicidas , Religioíbs adúlteros 5 nao per-
deo a Tiara Pontifícia a prerogativa de fan-
tifiima, dejuftiífimo o poder dos Monarcas, e
de perfeito o Sacerdócio , e o eftado Monacal.
iMas para que arrebatou até aqui o diícur-
fo nefla Apologia aojuizo, e memória de Se-
neca , fe elle nao legislou contra a Pintura , e
fó diílè , que os Artífices no máo ufo delia nao
fofíèm liberaes , nao por Profeflbres, mas como
Pintores immodeftos , que naquellas formas def-
afiavao , e lifongeavao a incontinência ? Por
iflb , para mayor credito de Seneca , e da glo-
ria da Pintura , expendi com verdade de pura
intelligencia a Epiftola 88 , e o feu genuino con;
ceito
e Analyúcá» i p
ceito para delle me valer em benefício da Pin-
tura , e moftrar , que errarao os Doutores , que
a abaterao , fundados na authoridade defte gran-
de homem , e erraráo daqui em diante , os que
guiados pelos fundamentos deílès Doutores fo-
rem parciaes contra a nobreza defta ingênua fci*
encia.
Nao digo (nem a tanto me impelle oamor,
e a veneraçaõ ) que confiderada a Pintura por
modo concretivo , fao nobres os Pintores poli-
ticamente , fó porque faÕ Pintores j porque co-
nheço, que os indoutos , os abjedos, os merce-
nários de obras fordidas , faô indignos do Privi-
legio concedido à Arte , e aos peritos , pruden-
tes, confpicuos , e graves nella 5 affim como
qualquer outro profelTor nefcio , e incapaz nao
participa da immunidade da nobreza , e das pre-
rogativas concedidas à fciencia. Fallo abfíradi-
vamente da Pintura , que nobilita aos Artifíces
theoricos , e práticos nella , e dos Pintores def-
ta esfera , e qualidade , digo , que naô íào , nem
devem fer mecânicos ; mas nobres para todos
os empregos , e predicamentos proprios , dos
que profeíiàõ huma Arte liberal. Quero dizer,
que a Pintura , em quanto fciencia , he Arte no-
C ii biliífi-
2 ò Carta Apologética ,
biliílima, e que faô nobres osProfeflòres, que
a exercitaõ dignamente.
Toda a Arte liberal he nobre : a Pintura
he Arte liberal , logo he nobre. Por Direito "
Civil he liberal toda a Arte , que os Gregos ef-
timavao por fciencia liberal. A Pintura entre
os Gregos era a primeira fciencia entre as libe-
raes , logo he Arte liberal. Aquella he a Arte
liberal no conceito univerfal dos Juriíconfultos,
e dos Doutores , que he capaz do varao livre ,
e que lhe dá preceitos para fer forte , prudente,
e fabio nas fuas acções. A Pintura de tudo if-
to he capaz , logo he nobre.
Com eíles tres fyllogifmos, (deixados ou-
tros ) dos quaes o fegundo , e terceiro fao pro-
vas evidentes da menor do primeiro , argumen-
tarey agora contra os Antagoniftas da ingenui-
dade da Pintura. Na5 me negaráô como ele-
mento certo , que as Artes liberaes fa5 nobres;
mas como podem negar , que a Pintura feja
Arte liberal , para que a confequencia os nao
conclua , anticipey o fegundo fyllogifmo , cuja
concludencia ou fe ha de confeílàr , ou negar-
fe a verdade da dita Hiftoria Grega , e a certe-
za , que nefte ponto dao os Hiíloriadores anti-
gos,
e Jmlytíca. 1 1
gos, que he conflante nosjiiriílas , que tratao
defta queftaò j e fó aíTim , negado eíle principio,
poderá nao concluir o argumento , que fuppof-
ta a verdade das premiílàs da mayor , e da me-
nor , nao tem repofta concludente j porque o fer
Arte liberal tudo o que os Gregos admittiao por
difciplina liberal , he definição exprefià , fem con-
traditor, deUlpiano naL. ^ cíevar. & ex-
traord. ccgmt. nas palavras já tranfcritas ; e eíli-
marem os Gregos a Pintura , como a íciencia
principal entre as liberaes , he elemento da Hifi
toria , e o certificaõ os dous Hiftoriadores , que
tranfcrevi , deixados muitos , que nao refiro.
Poderfe-ha recorrer a que os Romanos ao
depois fe apartarao da generalidade da dita de-
finição , admittindo os íervos a Pintores , fendo
prohibidos pelo Edido geral dos Gregos. Mas
a efiès fervos nunca deraó os Romanos a gra-
duaçao , e os privilégios concedidos ao Pintor
ingênuo , falvando com efte abatimento , prati-
cado nos fervos , a ingenuidade mandada obfer-
var no dito Edido aos Profefibres da Pintura li-
vres , e ingênuos j e por ifib , que exceptuarao
os íêrvos para os gráos , e diflinçoes concedidas
aos varoens livres , eílabelecerao nefta excep-
çao
22
Cartà Apologética.)
çao regra firme de nobreza a refpeito delles.
Quem for erudito na Hiftoria Romana íà*
berá , que aos fervos nao era prohibido apren-
der , e exercitar as Artes liberaes , ainda que nao
coníeguiílèm a nobreza , e todas as prerogati-
vas concedidas por ellas aos varoens ingênuos ,
porque havia fervos Médicos, Filofofos , e Poe-
tas , que eraô Profeílõres deftas Artes , que faó
liberaes , e fummamente eftimados nelias na-
quelles felices feculos , em que a eftimaçao das
gentes andava vinculada à fabedoria peflòal. E
fe eu fizera aqui catalogo de grande parte dos
fervos , que por Médicos , Pintores , Filolbfos>
Poetas , e pela fciencia de outras Artes libera-
liífimas fubirao a alturas de diftinçao politica,
baftaria dizer , que Platao dedicou a Fedon o
livro Divino da immortalidade da alma , e que
Menipo , Pompilio , Perfeu , Mys , e o grande
Epiíleto , e os mais que nomeaÕ Aulo Gelio ,
Macrobio , e Tiraquello , forao de condiçaS
íervil , mas de doutrina tao nobre , que mere-
cerão juftamente o refpeito , e veneraçaô da-
quelles feculos ; e Seneca na Epiftola 47 aflèn-
ta, que os fervos erao capazes de toda a arte,
e doutrina , e por efta razao refpondendo à du-
e Ãnalytica. 2 3
vida com que lido , diz Tiraquello as palavras
feguintes : Nec fi fervi plurimi medicinam ex-
ercuermt , continuo fequitur eam fervilem eje
artem, C5* illiberalem. JSam tametft artes libe-
rales diâta fint , qiiod liberis digna fwt : tamen
fervos d fe non rejiciunt quando , O* ii liberali-
bus Jludiis erudiri pojjiint , ut prohat textus in
Li. ult. in dn. f. de JEdi/it. edióí. Multosque Jer-
vos legimus ad fupremiim ujqiie Vhilofophia , O*
aliaram nobilijftmarum artium fajligmm eveóíos
fiiife.
Agora fe entenderá ajuíladamente a clau-,
fula das palavras : Si modo ingenui Junt da
L. Archiatros 8. Cod. de Metat. O* Epidemic.
Ub.i2., de que logo me lembrarey , nas quaes
os Emperadores Theodofio, e Valente , diflin-
guiraô os Pintores ingênuos dos fervís , ou por-
que feriao poucos os eícravos , que fe applica-
vaõ a efta fciencia , ou para que foflèm menos,'
ou nenhuns , vendo-fe privados da honra con-
cedida aos ingênuos , porque íèmpre os Empe-
radores quizeraô falvar a ingenuidade do Edi-
do dos Gregos nefte ponto.
Com efta advertência pondero , que ne-
nhuma das Leys apontadas nos Doutores dá
opinião
24 Carta Apologética
opinião negativa contra os Pintores , falia da
Pintura em quanto íciencia , dizendo , que naô
be ingénua. AL. Hte oper^ 25.^ de Oper.
libertar. , em quanto diz, que o liberto deve
preftar ao Patrono as obras da Pintura , logo
declara , que naô he pela natureza da manu-
miílaô , mas pelo contrato , que fez com o Pa-
trono , e por iílb devendo as obfequiaes pela
Ley natural em gratificaçaÔ do beneficio da li-
berdade , fó deve as obras da Pintura pela con-
venção do contrato j e daqui nem por argumen-
to remoto fe fegue , qiie a Pintura , em quanto
fciencia , feja Fabril , porque o fervo ( que pe-
la difciplina Romana podia aprender as artes li-
beraes ) para coníeguir a liberdade prometteo
pintar para feu Senhor , naÔ fe podendo inferir
do Pintor fervo para o Pintor ingénuo.
A Ley Quoties 24 do mefmo titulo fó
explica o como , e o quando fe devem eílãs
obras em obfervancia da eftipulaçaô contrata-
da entre o fervo , e o Senhor. A Ley 6'/ non
Jbrtem 26 , Libertus \2. jF. de Condióí. inde-
bit. nas palavras veluti piãorias , ufa de termo
explicativo da paga , e naô comprehenfivo de
obras Fabris , como bem explica a Gloílà. A
e Analytica, 2 $
Ley I. Coâ. ãeexcufat. Artific. porque entre
as peílòas , que fao ifentas dos tributos peflõaes
incluio os Pintores , nao diílè , que elles erao
mechanicos , aííim como por ifto o naÕ erao os
Médicos, coníiderados juntamente no Privilegio
concedido na dita Ley.
Na mefma forma a Ley Archiatros já ci-
tada , da qual pervertida a verdade da fua intel-
ligencia , quizeraô alguns Doutores deduzir ar-
gumento contra os Pintores , derivado da difiè-
rença, efeparaçao dos nomes: Archiatros nof-
tri Palatii , (diíTerao os Emperadores ) nec non
Ur bis RontíC , Magijlros litterarum pro m-
cejjanis , Artibus , vel liberalibits di/ciplinis , nec
non Píóíiira profejjores ( fi modo ingemii fiint )
bojpitali molejlia (juoad vivent , Uberari pr<eci-
pmiis. Os Médicos do fagrado Palacio , e os
da Cidade de Roma , os Meftres das Artes li-
beraes , e os Profeflbres da Pintura , na5 efcra-
vos, em quanto viverem , mandamos , fejao iíên-
tos de Hofpedes , e Soldados , e de Apofenta-
doria do Principe. E quem naô vê o quanto he
exuberante o Privilegio concedido nefta Ley à
Pintura , comprehendendo os Profeflbres ingê-
nuos delia com os Protomedicos , (dos quaes diz
D Bar-
2 6 Curta apologética ,
Bartolo na L, iinica , Cod. de Comítíh. ü* Ar--
chiatrh , tinhao a dignidade Ducal) e aos Mef-
tres das letras , e Artes liberaes ; mas, bailou di-
zer o texto : 'Hec non Pióíura projieffores , para
fe argumentar , que fe elles foílèm nobres , fe
incluiriao nas palavras vel Hberalibus di/ciptinis,
e efcu fadas feriaÕ as outras , nec non Piôlurte
profejjores , que eílao denotando lerem mecha-
nicos , porque o texto os tratou , e diftinguio
feparados dos Profeílòres das ditas Artes, o que
nao feria aííim, fe nellas foílèm comprehendi-
dos.
Eíle he o argumento mais forte , que fe
efcreve contra a Pintura j e quanta debilidade
terão os outros fe eíle he taõ fraco , fendo o
mais valente entre elles? Eíle texto, que bem
entendido , he capital a favor da Pintura ingé-
nua , o allegao em primeiro lugar os Doutores ,
que a defendem 5 e eu occultando com reveren-
cia o nome deílès Antagoniílas , hey de ponde-
rar contra elles os argumentos , que fe formão
deíle texto , e que à ponta da penna , me minif-
tra o difcurfo. Nefte texto fe tratao diníliníla-
mente os Médicos , e Protomedicos pelos feus
nomes: Archiatros nojiri Palütii , nec non Vr~
bis
e Analytica. 2 y
hh Rom^e^ e fe elles nao deixaÕ de fer nobres
eftando com feparaçao das palavras ve/ lihera-
libus di/i,iplms , como nao lèrao nobres os Pin-
tores , que no nec non RiSlur<e pr^ejfores eílao
com igual feparaçao ? A raza5 de diffèrença íê-
rá difficilima de affinarfe. Já fe nao deve du-
vidar, que os Médicos faô nobres 5 foíle embo-
ra difputada a fua nobreza nos feculos paliados,
como lemos nos Efcritores contra ella: logo fe
os Médicos fícaÔ nobres eftando nomeados por
feu nome appellativo naquelle texto fóra das
ditas palavras vel liberalibus dtJcipHtns , tam-
bém os Pintores ingênuos , que igualmente fe
nomeao , ferao nobres , fem lhes obftar a gene-
ralidade dasmefmas palavras.
Gotofredo na explicação defte texto ver-
te com admiravel intelligencia na particula iit ,
a conjunção nec non , para que as palavras dos
Emperadores fe entendaÕ , que aquellas preemi-
nências , e ifençoes fe davao às peíToas referi-
das , para que enfinaíTem a adolefcencia Ro-
mana , e a induftriaflèm nas Artes liberaes , co-
mo o faziao os Pintores : Ametatis funt iminu-
ms , tantisper dum viviint Archiatri Palatii ^
O* Urbis Rontíe , Mugijiri litterarum , pro vere
D ii necef-
2 8 Caríâ Apologética^
neceJfarUs , C3* Uberalibiis di/cipUnis , ut Fiôiura
pr^ejfores fi modo , ingemii funt. Porque fe en-
íinem ( diz Dionyfio Gotfredo) as difciplinas,
que l'aÕ verdadeiramente liberaes como os Pro-
feílõres da Pintura : Fro vere liberalibus difcU
plinis , ut Píãurte profefores 5 conílituindo a
eíles Profeflbres nao íb nobres , mas por exem*
pio (nefte texto) das Artes, que faô precifas,
e liberaes verdadeiramente.
Nem o contrario pode fuílentaríe , ufan-
do os Emperadores das palavras Fiãura prafef-
Jbres , que na pureza do lentido jurídico , da la-
tinidade Romana , e dos Jurifconfultos , fignifí-
cao Profeílbr de fciencia , e Arte liberal : Inde
prcfejjores , ^ui artes liberales profitentur , diz
Briííònio , e com muitos exemplos Calepino ,
Grutero, ePlinio Junior , e poriííb no corpo
de Direito ha titulos inteiros no Cod. Qiii ata-
te , vel profejjione Je excuf. lib. 1 o. C?* de Fro-
JeJJorib. Medie, no mefmo livro , e neftes ti-
tulos , textos formaes , como faõ ( deixados ou-
tros ) a L. 1. Cod. Qui atate ; cum vos affirme-
tis liberalibus /hidiis operam dare maxime cir-
ca jiiris profeffionem , L. Médicos , Cod. de Fro-
. O" Medie. Ç?* profe^ores aiios litterarum.
L. final.
e Amlytica. 2 p
L. iinài. eod. tit. Hac cutem > O* prcjejjoribus
memoratis j e admiravelmente na L. \.JF. de var^
C?* extraordin. cognitionih. e efta foy fempre a
fraze pela qual os Emperadores, e os ditos Ju-
rifconfultos explicaraõ as fciencias liberaes , cha-
mando Profeílores às peílbas , que as exercita-
vao 5 e o argumento deduzido da propriedade
juridica da palavra tem grande refpeito em Di-
reito.
Nao deroga a Pintura à Nobreza como
as Artes fedentarias , e fordidas coftumao preju-
dicar; porque o Pintor, nobre por origem, no-
bre fica fendo Pintor: logo a Pintura nao he
mechanica em íi. Deixo a intelligencia com-
mua , que a diverfidade do nome fó procede
quando as palavras fe nao unem, oufymbolizaô
na natureza da coufa , de que ellas trataõ pelo
texto na L, Si (juis úlium 3. Cod. de íiber. pra-
terit. cap. Ea qiue extra defimon. cap. Intelli-
gentia , cap. Propterea extra de verbor. fígni-
ücat. e omittindo as mais , que aqui occorrem,
me lembrarey de tres ponderações fomente. A
primeira, e vigorofiffima nos preceitos da fcien-
cia legal , que fe a Ley quizefle , que a Pintura
nao foíTe ingênua, tendo princípios, eprogref-
3 o Carta Apologética ,
fos noblliííímos , facil lhe era declarallo ; e co-
mo o nao exprimio , ficou ella íendo liberal.
A fegunda , que fendo os Pintores Cidadãos
Romanos , por Julio Cefar, como ProfeíTores
das Artes liberaes , às quaes participou as hon-
ras , e prerogativas concedidas aos ditos Cida-
dãos , que nao era5 tao fáceis de confeguir , co-
mo o forao no Império de Antonino , Pio , e de
Juíliniano , havia fer a Pintura liberal neceílà-
riamente. A terceira , porque além dos Dou-
tores antigos , e de grande veneraçaô , chama-
rem íèmpre à Pintura nobre como Arte liberal,
de que fe efcreveria catalogo extenfiífimo , fe
fofie importante , he ella ingênua confiderada
no feu principio , nas fuas virtudes , no feu pro-
greflb, e em todos os Direitos efcritos, aífim
fagrados , como profanos , e politicos 5 e tantas
prerogativas , e excellencias ajuftadas entre fi,
nenhuma Arte liberal , e íciencia confeguio com
tanta naturalidade , e tanto merecimento , co-
mo a Pintura.
Perdoe-me agora o Direito Civil , que eu
o reconvenha , já que nelle fe bufcao Leys pa-
ra abater efta fciencia. No Império Grego, ha-
vendo tanta fabedoria , eftava em tao pouca
reputa-
e AnaJytica. 3 i
reputaçaÔ a fciencia Civil , que fó a aprendia5
peflbas humildes , e por ilTò os Jurifconfultos
Gregos foraô homens vis no mefmo tempo,
em que os Pintores eraÕ peflbas nobres. Segui-
rao-fe os feculos Romanos , nos quaes osjurifl
confultos forao na mayor parte V aroens amplií^
fimos , e os Mancebos illuftres , que afpiravao
a Magiftrados , e dignidades , eíludavaõ a fci-
encia legal , cujos rudimentos , ou principios
vieraô de Athenas , Cidade de Grécia , nas dez
Taboas , que com as duas , que os dez Varoens
Romanos lhes accrefcentarao , conftituirao- a
primeira fonte de Direito Civil 5 e venerarao
tanto os Romanos a política , e difciplina Gre-
ga , que já mais a oifenderaÔ , decretando , que
em Roma , e no feu Império foflè nobre tudo
o que nos dos Gregos era , ou tinha fido libe-
ral.
Daqui infiro , que antes de haver Direito
Civil Romano , já a Pintura era ingênua ; e quan-
do a fciencia legal era vil em Grécia , a Pintu-
ra era nobiliflima : logo tem a Pintura princi-
pio mais ncbre , e antigo , que a Jurifprudencia
Romana. Os Romanos Jurifconfultos foraô
fabios, eloquentiffimos , Meílres das fciencias,
e fum-
3 2 Carta Àpologetica ,
e fummos eílimadores delias : os feus coníèlhos
fe região pelos fins honeftos dascoufas, e pelas
diffiniçoes , e etymologias : eflimaraõ grande-
mente as Artes liberaes , que naô claufularao a
termo , e nome certos , porque tiverao por in-
génuo tudo o que os Gregos eílimaraô como
liberal 5 e naÔ he crivei , que defcobrindo na
Pintura todas as virtudes moraes , que ornavaÔ
as fciencias , que tanto eílimaraô , e privilegia-
rão , abateílèm eíla Arte , que he compendio
das melhores , e principaes ; pois naô poderia o
engenho Romano defcobrir artificio, com o qual
de materiaes puros , e nobiliffimos fe formaííè
huma imagem impura , e fem nobreza : venho
a dizer , que de fciencias ingénuas íè compuzef-
fe outra , que foílè mechanica.
Todas as operações do entendimento mo-
ral , e fabio faÕ nobres , e também o faõ as em
que o corpo tem parte menor , que o entendi-
mento : nelle fe geraô as fciencias , e nelle naf
ce afciencia da Pintura. Produzem-fe dojui-
zo , e do difcurfo as operações intelleólivas , e
deíle principio ftô produzidas as invenções da
Pintura. As acções moraes , e os fins decen-
tes , que o entendimento aconfelha pelo meyo
das
eAnalytlcà, 35
das fdencias , tem a Pintura por objedo , e
doutrina ; e tudo o fcientifico , e doutrinal nas
Artes liberaes para ennobrecer , e inftruir o en-
tendimento , para vida fábia , e regular , defem»
penha a Pintura com viftoío exercicio. E como
reputariao os Romanos por illiberal a Pintura ^
íè nella tem o juizo mayor emprego , que o cor-
po , e tudo o que conílitue liberaes as outras
fciencias , íè executa na Pintura?
Os Romanos forao eftimadores , e obíèr-
vantes da Politica , inftruidos nasHiílorias : (que
pelo preceito do Emperador tanto he precifa pa-
ra os profeflòres de Direito) fabiaó o que paíla-
ra nos lèculos dos Gregos , cuja doutrina imita-
vaÕ na mayor parte , e muito melhor eftavao
certos na fua Hiftoria Romana , pela qual co-
nheciao , que o filho terceiro , e legitimo doíèu
fegundo Rey , fora Pintor , e que efta fciencia ,
e o feu appellido fe coníèrvara nos feus deícen-
dentes por alguns lèculos , fendo Confules , e
Embaixadores. Nao ignoravaô , que os Em-
peradores Conftantino , Adriano , Marco An-
tonio oFilofofo , Alexandre Severo , Nero Va-
lentiniano , Gordiano , Elio Aureliano , Mar-
co Aurélio, Auguílo, Tiberio, ejuftiniano ex-
E ercita
3 4 Apologética ,
ercitarao com grande applicaçao a Pintura, e
a eílimavao em gráo excellente , unindo à gloria
de Pintores , as foberanias de Monarcas , e nao
íendo verofimel , que legislaílèm contra ella,
he natural , que a intitulaílèm fciencia Impe-
rial , alludindo aos Emperadores , que a pratica-
rao. E íe para fer nobre o Medico bailava to-
mar o pulfo ao Rey , nao haviao tratar de me-
cânico o Pincel , andando exercitado na maô
de tantos , e taes Emperadores.
Agora me torno a confirmar no penfameii-
to , de que por ifib em todo o Direito Civil fe-
nao lê texto pofitivo contra a Pintura ; porque
naquelles feculos foy reputada ingênua pelas Ar-
tes liberaes , que incluía em fi , e pela qualida-
de das peílòas , que a exercitaraÕ 5 e na verda-
de , que lançando a viíla à Hiíloria defta Arte,
fenao defcobre nella motivo , que divirta o juí-
zo deíle penfamento. Se lhe bufcamos a no-
breza pela antiguidade, baila dizer comPlinio,
que os Egypcios fe jaêbavao de fer nelles inven-
tada a Pintura , íeis mil annos antes que pailàíle
para Greda : fe a invenção , todos concordao,
que foy tirada, ou perfilada pela fombra do ho-
mem , créatura mais nobre , e perfeita da maô
e Analytlca, 3 j
de Deos : fe as virtudes , todas faÔ de entendi-
mento, e de efpirito : íê a fciencia , exercita ella
muitas das liberaes com viftoía , e vifivel perfei-
ção : fe o predicamento , foy o mais nobre , que
no Mundo político , e em todos os feculos con-
feguio outra fciencia , já na eftimaçaÕ , porque
a dos Pintores infignes foy emgráo fublime: já
na immunidade , pois a cafa , e a peíToa de mui-
tos forao reípeitadas ; já nos talentos , porque
he incrível , e fufpeitofo o que efcreve Plinio ,
dos que íe difpendiaÕ nas Pinturas j e já na par-
ticipação das excellencias pelos muitos Prínci-
pes , que a exercitarão.
Cediao à Eícritura , o Poema , a Hiíloria,
a Oraçaõ Rhetorica ao pergaminho , e papel
alheyo , em que feefcreviaô nao fó com tinta,
mas ainda que foílè com letras de ouro 5 e o
pano , pofto que precioíb , e a taboa , ainda fen-
do de prata , cedia à Pintura fcientifica , que
nelles fe formou , reprovando Juftiniano para
eílè fim a opinião de Paulo. Comprehendiao-
fe os livros de divertimento do Teftador , mas
nao as Pinturas , no legado , que elle deixou do
campo , nem , legando-fe a prata , o que nelia
eílava pintado 5 porque a matéria fe transforma-
E ii va
3 6 CxfU Apologética 9
va na Pintura como parte mais nobre , que ella.'
Cicero, que foy peritiííimo em Direito Civil , e
nas letras , e fciencias , querendo exaltar o Poe-
ma de Homero a gráo excellente , diílè , que
era Pintura, enao Poeíia, aflèmando naÔ po-
dia ter melhor elogio, para exaltar aquellarara
Obra , que transformalla de Poema em Pintu-
ra.
Aflim he: porém o coílume doPaiz , que
os Doutores mandaô attender , tem eftabelecido
direito , que prevalece a eftes difcurfos 5 mas
porque eu hey de clamar contra efte coílume ,
combati até aqui os fundamentos delle. Aflim
he , que he coílume , mas barbaro , e reprehen-
íivel entre nós , por iílb mefmo , que fó nós o
praticamos contra a obíèrvancia dos Impérios
polidos, e a eílimaçao dos may ores, e melho-
res homens em todos os feculos : e he para laf-
timar, que fendo Portugal elegante cultivador,
e propagador das fciencias , e bellas letras , nao
tenha deílerrado eíle coílume , que aflim íè
introduzio , nao por geral confentimento dos
feus Doutores , mas de alguns , e que tanto fe
aparta dos preceitos Catholicos , e Políticos ,
a que devia fugeitarfe : e quanto receyo , que ef-,
te
e Jnalytica, 3 7
te vitupério , que fe pratica com a Pintura , fe
approprie com juíliça na noílà reputaçaô , e que
por deíèftimadores defta Arte fejamos barbaros
no conceito dos Varoens eruditos! Quem ler,
que entre nós fe abate a Pintura generofa, quan-
do alíim fe humilhaÔ os íèus Artifíces , póde
dizer , que ignoramos as virtudes , ou defpreza-
mos as fciencias , que faÔ infeparaveis da Pin-
tura virtuofa. E que reíponderemos em defen-
,faô donoílb credito, fenos criticarem , de que
em Portugal fe defauthoriza a Arte , que fby
digna da applicaçao de Pontifices , de Cardeaes,
de Emperadores , de Reys , de Arcebifpos , de
Bifpos , de Príncipes , de Princezas , de Du-
ques, deMarquezes, edasmayores peflbas de
ambos os fexos , e de ambos os eftados Ecclefi-
allicos, e Seculares?
Como nos juftifícaremos , fe formos efira*
nhados de nao eílimarmos diflinólamente a fci-
encia , que elevou a tantos Pintores aos empre-
gos mais excelíbs da honra , huns merecendo o
caraâier de Embaixadores , muitos a diflinçao
deCavalleiros armados pelas íàgradas mãos das
Mageftades , alguns os litulos de Grandes do
Reyno, e de Gentis- homens de Principes , e to*
38 Carta Apologética^
dos as eftimaçÔes mayores da Republica ? E if.
to porque nao amamos , o que devia fer ama-
do no mefmo tempo , em que daõ brado no
Mundo as vozes das noílàs applicaçoes , e do
apreço , e cultura , que fazemos das fciencias !
Quereremos fer fabios defeílímando a fciencia,
que toda he obra do entendimento ? Seremos ge-
nerofos períèguindo a Arte , que he congregado
de virtudes generofas ? Veneraremos , e adora-
remos as Imagens , e as obras , e defeftimaremos
a fciencia , e a mao , que as produzio , porque
pervertida a ordem de geraçaÕ politica , he no-
bre entre nós o produzido , e mechanico o pro-
ducente. As producçoes fe elevaraÔ nos Tem-
plos , nos Altares , nos Falados , nas galarias ,
nos gabinetes , e nos fitios do decoro mais íu-
blime ; mas os producentes fera5 fumergidos
no triftiílimo abatimento da mechanica? Valeria
huma Pintura preço tal , que nao valha a ma-
yor Livraria , e andará em cabeça de Morga-
do a Pintura : porém a fciencia fe naõ livrará
da claílè da plebe , em que anda vinculada !
Forciííimos paradoxos , e delirios, echimi-
ca extravagante do engenho , com que de ma-
teriaes puros , e nobiliífimos fe forja hum mix-
to
e Analyúca, 3 p
to impuro, e fem nobreza ! Direy , que nao he
ifto ufo , mas abufo em Portugal 5 credito,
mas deícredito do Paiz , digno de coftumes mais
doutos, epoliticos: direy, que naÕ póde eílar
na pratica , o que nao eftá na Ley : direy , que
naô he obfervancia da Ley tranígreílào delia
para fuílentarfe o coílume , que em fi he irra-
cional. Tem o ufo força de Ley , íc nao he
reprovado nelia : a obfervancia ajuflada inter-
preta a Ley nos privilégios , nos eftados , e ou-
tros aâ;os 5 mas por iílb eu digo , que efte ufo
donoílb Paiz he errado , por fer contrapofto às
Leys , aos Doutores , e aos principios , e precei-
tos das Iciencias principaes da razao reda , na-
tural , e política , que o conftituem abominavel,
e gerador fecundo de tantos abfurdos , que nel-
le fe defcobrem em qualquer inveftigaçao.
O Jurifta, que conhece , que além das fete
fciencias , que Santo Ifidoro exemplificou , faô
liberaes todas as Artes dignas do V arao livre ,
e que os Gregos reputaraô por liberaes , detef-
tará eíle abufo contrario aos elementos da ver-
dadeira Jurifprudencia , pois vê defefiimada a
Pintura , Arte , que roscxplica , e irfirue me-
lhor, que outra alguma, o que he bom, e em
que
4© Cartâ Apologética^
que íe ajuílao completamente , a definição , e
os predicados das fciencias liberaes, que tanto
fe reípeitaraÔ nos feculos Romanos.
O Canonifta , que venera por nobre a fci-
encia , que nos conduz ao exercício das virtu-
des , e da compoílura das noílàs vidas , reprova-
rá eíle abufo , vendo abatida a Pintura , que he
o degráo pelo qual fubimos ao conhecimento
do que hejufto, e das maravilhas deDeos, e
he Hiíloria dos fabios , e Meftra muda , elo-
quente , e doutrinal dos idiotas.
O Theologo , que pela doutrina de Santo
Agoftinho reputa fciencia liberal tudo o que nos
dirige para fim virtuofo , e noticia do Creador
fupremo , maldizerá efte abufo j porque a Pin-
tura nos moílra o caminho redo , pelo qual de-
vemos caminhar a eflè fim , e nos dá luz clara ,
e vifivel da Hiftoria fagrada , da reprefentaçaS
poffivel deDeos, dasíuas creaturas , edafer-
mofa maquina de huma , e outra Jeruíàlem.
O político , e erudito na Hiíloria univer-
íâl blasfemará contra efle abufo, tendo lembran-
ça da diílinçao das honras , e dos cabedaes,
que em todos os leculos merecerão os Pintores
infignes , Gigantes heroicos da eílimaçaÔ poli-
e Amúytka.
tica, naô mais generofa para com elles , do que
merecida : e fujeito o abufo a eftas detefla-
çoes , e blasfêmias , para onde fugirá , que nao
experimente mayores invedivas , e condemna-
ções ? Se para os Direitos Legaes , fe para os
Canonicos, fepara os preceitos Theologicos, íè
para os Politicos de todo o Mundo , nada acha-
rá, que o patrocine com evidencia: fepara os
Doutores , poucos contará por fi na compara-
çao dos muitos , que o encontrão: fe para os
fundamentos , fao elles tao humildes , como o
he o juizo , e a paixao de quem fe aproveita
delles.
Dizem , que he mechanica a Pintura , por
íe exercitar com matérias , ou materiaes de bai-
xa qualidade. Eííès fragmentos , por nao di-
zer trapos , de que fe fórma o papel , e eíla vil
pelle , de que fe compoem o pergaminho , em
que fe efcrevem , e praticao as Sciencias , as
Theologias, os Cânones , as Leys , as Hiftorias,
e o mais que he fcientifico , faõ mais nobres ,
que o pano , o cobre , a taboa , em que fe exer-
cita a Pintura ? A penna , e a tinta , que ferve
às fciencias liberaes , fa5 de material fublime ao
pincel; e às cores ; de que ufa o Pintor? Efcre-
F ve
4 2 Carta Jpologetica ,
ve o Jurifta , o Canonifta, oTheoIogo, e o
Hiíloriador no papel , e no pergaminho com a
penna , e a tinta , que tudo em fi he matéria
vil , e tem valor limitado j e nem por iílb he
mechanico o Jurifta , o Canonifta , o Theolo*
go , e o Hiftoriador : e ha de lêr plebeo o Pin-
tor , porque com pincéis , e tintas de preço uíà
de panos , e de materiaes fubidos , nos quaes
lança as Imagens ?
Se Homero , íè Virgilio , fe Camoens , fe
Cicero , e outro Heroe das idades paflàdas eí-
creveflè, e com letras de ouro, o feu Poema , as
fuas Orações no papel, ou material alh,eyo, ain-
da que humilde , cederia tudo ao papel , e ao
material , adquirindo-fe ao dono delle , e naÔ o
papel , e material a Homero , Virgilio , Ca-
moens , e Cicero. Mas fe o Pintor cgnfpicuo
pintaftè em huma lamina de prata , ou de ouro,
huma figura ajuftada ao primor da Arte , cede-
ria a lamina à Pintura como parte nobiliflima,
que attrahia afio menos nobre: diftefle oju-
rifconfulto Paulo o contrario , porque foy re-
provado no Direito noviftimo de Juftiniano.
Por iflb Pomponio determinou , que as
Pinturas feitas na prata fe naÕ incluiíilem no le-
e Analytica, 4 3
gado delia : imagines argente<e argenti
appellatione continehuntur j e eftas imagens la-
bem os eruditos , que íe entendem da Pintura
pela L. Si Imaginem, CS* in rubric. Cod. de St a -
tuis , CS* Imaginibus ; naô fendo aífim nas pe.
dras precioíàs , porque logo no Perveniamus,
diílè , que cedeílém ellas à prata j que he tal no
juizo das Leys a excellencia da Pintura , que
attrahe a fi como acceíibrio menos nobre a ma-
téria da prata , que a reípeito das pedras precio-
fas fe reputa como caufa principal ; Pervenia~
mus adgemmas inclufas argento , auroque. Et
ait Sabinus , aiiro, argentoque cedere. E pouco
importa , que feja a prata material mais nobre no
concuríb das pedras preciofas , fe concorrendo
com a Pintura , ha de fer ella mais preciofa , que
a prata. Pinta , torno a dizer, o Artifice empa-
no , em taboa , em cobre , em marfim , em cryf-
tal , em prata , e em ouro ; e o Juriíla , o Cano-
nifta , o Theologo , o Hiftoriador , efcreve em
papel fomente : ufaõ huns de tinta , e inftru-
mentos humildes , e o outro de tintas , e inftru*
mentos nobres 5 e nao fey defcobrir razao con-
gruente, para que contemplados os matérias íè-
jao o Jurifta, o Canonifta , o Theologo , e o
F ii Hif-
44 Carta Apologética^
Hiftoriador nobres, e o Pintor feja reputado por
mechanico.
Dizem , que por venderem as fuas obras ,
e trabalharem afalariados. He forte delirio , e
paixaô de dizer , e defcuido , ou ignorância das
Hiftorias ! Vender as obras , como naÔ foílè
perder a fciencia , mas eftimar os eííèitos , e pro-
ducçôes delia , foy coílume dos Pintores gran-
des em todas as idades , e por preços tao fubi-
dos , que bem moftrao o valor , e eftimaçaÔ ,
em que eftavao reputadas as Pinturas. Plinio
refere o preço de algumas , e nós fabemos mui-
to bem o como as dos Pintores antigos , e dos
modernos , diílinóbos na fama , fciencia , e gof
to de pintar , íê coílumao fatisfazer , nao fó nef-
te Reyno , mas com fuperior ventagem nos em
que ha mayor eftimaçao defta fciencia. Virgí-
lio vendia os feus Verfos por talentos ; Demof-
thenes , e Cicero , as Orações , que faziao ; e
todo o Orador digno íe enriquecia de cabedaes
pela fua fciencia : o Advogado 'difpende com
honorário a [fua litteratura nos cofiíelhos , e nas
allegaçóes : o Medico cura com intereflè a quem
tem com que Ine pague : o Pregador prega na
certeza da efmola , que lhe dao pelo Sermão : o
e Amlyúca. ^ 5.
Juiz nao julga fem ordenado ; e fínalmente ha-
vendo -direito para que as obras ícientifícas fe
reputem por preço nobre , nao ba Ley , nem
Doutor , para que as Artes liberaes percaó a
nobreza , porque fe exercitaõ com intereílè.
Já ouvi dizer , que algumas vezes eraõ fa-
lariados os Pintores, pondo-fe no predicamento
de jornaleiros : mas logo refpondi , que tam-
bém os Eícrivaens, os Inquiridores , os Juizes
dos Tombos , os Defembargadores, que fahem
da Corte a diligencias, vencem falarios, ou ho-
norários, contados por cada hum dia , e com
tudo naô erao jornaleiros , nem mechanicos.
Além do que, eu fallo do Pintor confpicuo, e
nao doabjedo, humilde, e borrador, que nao
eílá nagraduaçaS de Artífice diftincfo ; eaífim
como o Rabula nao merece a honra , e nobre-
za de Advogado ; o nao formado na Univeríi-
dade o diílindivo honorifico de Medico appro-
vadoj e o Pregador idiota a eflimaçao de de-
clamador,perito; também eflà efpecie de Pinto-
res nao participa da nobreza privativa dos egré-
gios , que fe luflentao com decencia , e gravi-
dade ajuftada às fuas pefiôas.
Eftas fao as duvidas , ou as bazes , que
fuften-
Cartã Apologética^
fuílentao o abufo de Portugal , aonde os Pin-
tores fe fazem famofos por virtude própria , in-
fluxo do clima , e acçaô da natureza , íèm as
exaltações , que fizerao nos outros Reynos a
tantos Pintores memoráveis , e grandes : o cer-
to he, que ageraçao política, generofa, epre-
ciía , em que devem defvelaríe os Príncipes vi-
gilantes do nome , e da gloria dos feus Impérios,
fá fe confegue creando engenhos, produzindo
f tbios , e exaltando fciencias , animando , e en-
nobrecendo os homens dignos com as graças ,
que inflammem os efpiritos , e perpetuem a glo-
ria dos Soberanos. Poriílb alentar as virtudes,
e os virtuoíbs , promover as Artes , premiar as
fciencias, foy íêmpre o didame melhor dos Mo-
narcas , e da Republica bem governada , para
que fe eleve a gloria publica , e fe naõ injuriem
os fabios, privados da remuneração , que mere-
cem j porque fe no Syftema Eftoico a virtude
era o prémio de fi mefma , nós , que com luz
raiis clara nos apartamos da auíleridade defte
Syftema , neceftitamos dos prémios precifos,
como frutos da virtude ; e para que ella íe nao
efterilife, fe fazem importantes as mercês, e re-
tribuições , com que a fciencia fe fuftente no
feu
e Analytica. 47
feu decoro , e eíplendor ; pois nao renovamos
as idades , em que os Filoíofos ( foflê foberba ,
vaidade , ou perfeiçaS nelles) af!èâ:ava5 amife-
ria de cabedaes pela melhor riqueza , exaltando
por tymbre das fuas fabedorias o defintereíle no
deíprezo das grandezas.
Houverao Apelles , Rafaéis , Bonarotas ,
Ticianos, Rubens , Duréros , Brandinélles , e
outros V aroens infignes nos feus feculos , como
feraô memoráveis em todas as idades ; porque
tiveraÔ Alexandres, Summos Pontifices Leoens,
Pios , Duques de Florença , Carlos V. , Filip-
pes , e outros Monarcas , que honraraÔ a fcien-
cia da Pintura na exaltaçaó dos feus Profeflòres.
Quem ler em Plinio , V alari , Palomino , e ou-
tros Hiftoriadores os feculos deftes grandes ho-
mens , vendo occupados por elles os empregos
mais diftinâios , admirará , que dignamente fo-
rao Embaixadores , Plenipotenciários , Condes,
Gentis-homens , Secretários , Cavalleiros, arma-
dos pelas mãos dos Príncipes , Arcebifpos , e
Conegos nas primeiras Cathedraes 5 porque os
braços daquelles Monarcas liberaes , e retribui-
dores com as fciencias , as premi avao com cre-
dito da Mageftade , fó Augufto , em gráo ex-
cellente ,
Cirta Jpologetica ,
cellente , quando fertiliza a Republica com
Varoens fabios , que fao o ornamento delia ,
e a gloria indelevel dos Reys , que amaõ o
nome , e adiantao a reputaçao dos feus Impé-
rios.
Até em Portugal lemos aos dous Chrifto-
vao Utreque, e Lopes, Balthalar , e Afionfo
Alvares , Nicoláo de Frias , Aíibnío Sanches,
Filippe Tercio, premiados com o Habito da Or-
dem Militar de Chriílo , ( honra , que naõ era
vulgar naquelles reynados ) e ao dito Filippe
Tercio , Commendador j e naÕ cederia Portu-
gal aos Reynos do Mundo na fecundidade de
Varoens eminentes nefta, e outras fciencias, íè
os engenhos , de que a natureza , e o Paiz fao
liberaliííimos para comnofco, foflèm alimenta-
dos com a eftimaçaÔ politica , e as liberalidades
ajuíladas à fua fciencia. Mas vemos, que (pre-
vertido o fyftema do Mundo morigerado ) fe
humilhao os Profeíibres, diftindos da Pintura,
na honra da politica , reduzindo-os o vil efpirito,
de quem aífim o entende , ao conceito de me-
chanicos , íêm mais fundamento , que a igno-
rância das Leys , do coftume univerfal dos Rey-
nos , da hiíloria das virtudes , que fe encerrao
neíla
e Analyttca» 45?
nefta fciencia , e das fupremas , e Auguflas pet
foas, que a exercitaraõ.
Quem lançar a viíla aos Impérios do Mun-
do, verá efcrito no Catalogo efpeciofo defta íci-
encia , como Pintores , a Conftantino VIII. , a
Adriano , a Marco Antonio Filoíbfo , a Ale-
xandre Severo , ajuíliniano, a Valentiniano, a
Gordiano , a Nero , a Elio Aureliano , a Marco
Antonio , a Augufto , a Tiberio , a Theodofio
II. , a Maximiano II. , a Carlos V. , todos Em-
peradores : verá também a Francifco , Rey de
França, aos quatro Filippes , Reys deCaftella,
os Infantes de Hefpanha , a D. Joaô de Auftria,
a Carlos Manoel , Duque de Saboya , ao Du-
que de Orleans , exercitando efta fciencia primo-
roíàmente : verá- em Roma ao Pontifíce Cle-
mente XI. , e ao Cardeal Aquaviva. Na jerar-
quia dos Duques , e Grandes ao Marquez de
Monte-Bello , Grande em Portugal , e Embai-
xador a Roma , Pintor excellente , vivendo da
Pintura , e Meftre de hum filho de Filippe IV. ,
o Duque de Ufeda , o Duque de Alcalá , o
Marquez de Aula , o Conde de Tuia , e outras
Perfonagens defta esfera. Na Eccleíiaftica a D.
Joao , Àrcebifpo de Cantuaria , D. Jeronymo
G Maf-
5 o Carta Apologética ,
Mafcai'enhas , Bifpo de Segovia , e outros Prín-
cipes da Igreja , por fer a Arte de Pintar digna
das mayores jerarquias , e eílimada em todos os
Eílados Ecclefiafticos , e Seculares.
No Catalogo das Senhoras Illuílriffimas ,
e de grandes Titulos , e Eílados lerá a Duque-
za deBejar, aDuqueza de Aveiro, aCondef
fa de Valumbroíà , e outras Senhoras da pri-
meira graduaçao em Caílella : e em Portugal a
Condeíià de Aílíimar , a Marqueza de Frontei-
ra , a Senhora D. Maria Magdalena de Caílro ,
mulher do Correyo mór do Reyno ; e eu refe-
riria outras Senhoras, íênaô baftaflè para cre-
dito da Pintura leremfe neflè Catalogo a Rai-
nha de Hefpanha D. Maria Luiza de Borbon ,
a Senhora Rainha D. Ifabel Faraezio , mãy da
Rainha noílà Senhora , e a V. Excellencia il-
luílrando fuperiormente a íèrie auguíla das íò-
beranas , e Reaes Artifices da Pintura.
Se depois diílo quizer faber a diílinçaô de
eílimaçoes , com que forao reípeitados os Pin-
tores iníignes, deixe osfeculos dos Apelles, Zeu-
zis, Parrazios , Timantes , e outros , de que íe
referem honras incriveis j e lendo a Hiftoria de
tres feculos a eíla parte , achará tantas coufas
e jinalytica. 5 1
paímofas , que enchem mais a admiraçaô , que
a grandeza : achará a Rafael de Urbino acom-
panhado em publico decincoenta dilcipulos, fi-
lhos da primeira nobreza de Roma ; e porque o
Pontifice lhe demorou o Capello Cardinalício ,
que lhe promettera , tanto que acabaílê as Pin-
turas do Vaticano , o cafou o Cardeal Bibie-
na com huma fobrinha , eftimando em muito
o aparentarfe com o Apelles daquelle feculo:
achará a Miguel Angelo Bonarota , Embaixa-
dor da Republica de Florença à Santidade de
Julio II. : a Ticiano , armado Cavalleiro daEfi
pora dourada pelo Emperador Carlos V. , Con-
de Palatino do Sacro Império , Cavalleiro do
Habito de Santiago , e Gentil-homem do mef-
mo Emperador : a Rubens , Embaixador Ex-
traordinário para as pazes , que ajuílou entre
Inglaterra, e Hefpanha, armado tres vezes Ca-
valleiro, porElRey de França, ElRey de In-
glaterra , e pelo Archiduque Alberto , Gentil-
homem da Archiduqueza , e Secretario de Efi
tado deFlandes: a Alberto Durero , Grande do
Império pelo Emperador Maximiliano: a Dio-
go V elafques. Pintor da Camera de Filippe IV.
Cavalleiro do Habito de Santiago , Apofenta-
G ii dor
t Carta Jpologetica ,
dor mór , e Enviado Extraordinário ao Papa,
de quem recebeo honras efpeciaes ; e além dei-
tes outros , que referirey em catalogo refumi-
do , e admirará o Leitor a felicidade daquelles
feculos, e dos feus Monarcas, que eternilaraÔ os
nomes nasHiftorias daquelles Varoens grandes.
Agora preguntaria eu aos Contraftes da
nobreza da Pintura qual foy a fciencia , que
teve tantos , e tao Auguílos Profeílbres ? Qual
a que dos principios debeis , que todas tiverao,
fe exaltou em Diícipulos , e Artifices como a
Pintura , nobiliíííma muitos feculos antes , que
as Artes foílèm liberaes ? Qual comprehende
em íi como a Pintura com exercício exprelíivo ,
e fabio tantas fciencias heroicas ? Qual nos dá
preceitos mais vifiveis para a moralidade dos
noflòs coílumes , nos enfina os paílbs da Hifto-
ria da antiguidade fagrada , nos converte para
o caminho da virtude , e moílra a idea poflivel
da Bemaventurança ? E qual a em que adora-
mos a Deos , a Virgem Santiííima Noílà Se-
nhora , aos Santos , e aos myfterios da nofla Fé
vifivel , e vivamente como a Pintura , que nos
reprefenta em Imagens fagradas a Theologia
pratica , e a crença da noíTa Religião ?
Tempo
e Analytica. 5 3
Tempo era agora de fe enfurecer o efpi>
rito , íê nao eftiveílè doutrinado pela longa dif-
ciplina de tantos annos contra efte abufo de
Portugal : e confeflàndome eílès antagoniílas ,
que aí ciência digna de Varaõ livre, e que con-
duz para fins virtuofos , era nobre , os arguiria
de injuftos , e temerários , em julgarem mecha-
nica a Pintura, que fe exercitou , e exercita por
pellòas ingênuas, e muitas excelias, e para efíèi-
tos , e frutos de efpiritual aproveitamento.
Recorrem a que efle ponto foy fempre
de opinião , como fe neíle Mundo houveflè
couíâ , que nao fofíè opinavel na vafta , e arbi-
traria liberdade dos homens , e preguntara eu
para que ha de a Pintura repiitarfe mechanica,
tendo opinioens para ler nobre, ofièndendo-fe a
efiè fim todas as razoens civis , moraes , e polí-
ticas , que nao mereciao oflênderemfe : otíèn-
de-fe a razao civil , porque fe perverte a inten-
ção das Leys , cujos fins fe dirigirão a ennobre-
ceremfe as Artes liberaes , em que a Pintura fe
comprehendeo em todos os feculos ; offende-fe
a moral , porque fe abate huma fciencia , que he
produzidora de tantas virtudes: otfende-fe a po-
lítica , porque fe encontra 0 augmento dos V af
G iii fallos
54 Carta Jpologetica ^ -
fallos dignos , fe desluílra a gloria , e reputaçao
do Reyno no abatimento da Iciencia , que can-
tou as primafias em todos os Impérios do Mun-
do , e foy exercitada pelos mayores , e melho-
res Monarcas delle, como aprimeira das Artes
liberaes , pelas íciencias , que comprehende , e
pelos frutos , e documentos da fua doutrina : e
ifto por huma opiniaÕ , que examinada na raiz,
no numero , e na qualidade dos Doutores , fe
nao he improvável , tem menos probabilidade
efpeculativa , e pratica , que a opinião favorá-
vel à Pintura.
Para fer ingênua efta fciencia como Arte
liberal , fe unem os difcuiTos , que deixo efcri-
tos : fe uniformaô os Doutores em mayor nu-
mero , e concorrem as muitas íentenças , que
tem os Pintores a feu favor para ferem ifentos
das penfôes , e dos minifterios , a que fao ílijei-
tos os plebeos. Nao pagao jugada , nem fe íli-
jeitao ao Senado , e às Prociflbens delle , nem a
Bandeira , como os officiaes mechanicos , por-
que a eftes refpeitos naõ fe diílinguem das pef.
íbas nobres , e fó fe abatem fendo difpenfados
para os hábitos das tres Ordens Militares , em
que os nobres fe nao diípenfao.
Eíle
e Ãnalyticái 5 5
Efte he o abufo 5 e donde elle poílà naí^
cer , eu o ignoro , pelos fundamentos , que re-
feri : e fe o fer mechanica a Pintura nafce de
ter dependencia da operaçaô manual , como ou-
vi dizer ; qual he a Iciencia , que fe nao fubor-
dina a eílà operaçao , e que fe exercita abfolu-
tamente fem intereílè ? Préga o Orador Euan-
gelico : exercita o Sacerdote o fanto Sacrifício
da Miflâ : adminiftra o Pároco os Sacramentos
da Igreja : julga o Miniftro as demandas : advo-
ga o Patrono nos litigios : canta o Mufico : cu-
ra o Medico : eníína as fciencias o Meftre. E
porque tudo iílo fe obra com trabalho corpo-
ral , e com honorário , e eftipendio , nada diflo
ferá nobre ? E qual he a Arte de juizo , que paf
fando da theorica para a pratica fe exercita fem
miniílerio do corpo , que he o exercitador da
eípeculaçao do entendimento ?
Se por na5. eftar a Pintura declarada nas
fete Artes liberaes , que individuou Santo líí-
doro ; já diíTe, que nellas fenao excluíao todas
as mais, pois a Jurifprudencia , e a Medicina,,
que fao ingênuas , fe nao nomearao naquellas
íete Artes. Todos aílèntaÔ , que Santo ífido-
ro nao taxou, as Artes , mas que ufando do nu^
mero.
5^ Ca.Ytà Apologética^
mero íètenario , que como perfeito foy muito
eílimado dos Antigos , explicou , e comprehen-
deo nas ditas Artes todas as fciencias , que íè
rymbolifaílèm nellas , ou tiveflém analogia , e
commercio com algumas delias j e por iílb a Ju-
rilprudencia , a Medicina , e outras faculdades ,
que o Santo nao nomeou , fao liberaes , tanto
como as íète nomeadas por elle. AÍIim que eu
naô fey defcobrir principio legal , ou politico ,
para efta diftinçao , certamente metafyíica , com
que entre nós he tratada a Pintura , como no-
bre para muitos effèitos , e mechanica-y>ara ou-
tros, concordando-fe fyficamente na mefma fci-
encia effeitos contrários de nobreza , e plebeci-
dade , naÓ nos accidentes , mas na fubftancia ,
quero dizer , diverfas fubfiftencias no mefmo fu-
geito, na mefma eílència, e na mefma nature-
za.
Nefte ponto me deíêjava demorar , pois
haviao alguns difcurfos de excellente Filofofía.
Direy , que a Pintura , que em quanto fcien-
cia , fe funda fó em ados interiores , ou fejaô
do entendimento , ou da imaginativa poíla em
pratica, enaoperaçao das mãos dos Pintores,
he obra externa fecundaria , e accidental , que
fó
e Analytlcü, 5 7
fó ferve para exprimir os conceitos, formados
na idea do Artifice , que em quanto nao paílã
de idea , naô he matéria , corpo , ou accidente
de alguma fubftancia , mas ordem , regra , for-
ma , e objedo do entendimento , que difpoem
por modo eminencial a figura , que fe ha de pin-
tar , e que antes de pintada íó eílá no concei-
to intelledivo do Artifice, e tudo o mais faô
áccidentes , que nao mudaõ a fubftancia , mas
fó exprimem os conceitos , que fe formaraÔ no
jyizo.
Efia diftinçao de rcfpeitos , em que con-
fiíle o abufo , pertende a Pintura fe extinga em
Portugal , para que fique igualada em tudo com
as Artes liberaes , que ella illuftra perfeitamen-
te j e ninguém ( Illuílriííima , e Excellentiífima
Senhora) melhor que V. Excellencia tem dado
teftemunhos gentis , e elegantes defta verdade.
Nao pode fer aProtedora outra, nem mais Au-
gufta , que V. Excellencia , nem o tempo mais
proprio para a exaltaçaÓ defta prerogativa , que
o reynado de hum Monarca Jofeph , que em
tantas acções de diftinda generofidade exerci-
ta o augmento , que promette o feu Nome. De
hum Rey Jofeph , cujos principies felices nos
moílraõ
j 8 Carta Apologética ^ e Analytica,
moftraõ já o Império ditoíò , que illuftrará os
Faílos de Portugal , eícrevendo-fe nelles as vir-
tudes delRey noílb Senhor , e os frutos fazona-
dos da prudência , e do entendimento , que eílá
produzindo o feu juizo nos annos da puberdade.
E já que eíla grande fciencia logra a felicidade
de ter em V. Excellencia huma Heroina , que
a ennobrece , efpera juftamente configa Vofla
Excellencia da mao Real , e fempre generofa
do mefmo Senhor, o Decreto , em que declare,
que he ingênua em tudo a íciencia da Pintura,
e como Redemptora da ília ingenuidade em
Portugal , fe grave o nome de V. Excellencia
no Catalogo dos Sacros , e Reaes exaltadores
deíla Arte , digna defte patrocínio de V. Ex-
cellencia j afíim como foy , he , e ferá beneme^
rita da fua applicaçaÔ fcientifica , e admiravel.
Deos guarde a Voíla Excellencia muitos annos.
Lisboa 7 de Novembro de 1751.
111.™ e Ex.^s» S." Marqueza Camereira raór.
De V. Excellencia
Menor Criado.
yofeph Gomes da Cfuz,
jro
g V- ^ C
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